28 dezembro 2009

Meus prediletos em 2009

É incrível, mas mesmo em um ano de muita, muita correria, pude ler livros. Não foi “um metro de livros”, como recomenda Paco Sánchez, mas um número respeitável de clássicos e bons lançamentos. 2009 me permitiu, enfim, descobrir Borges, Cortázar, Roth e Orwell. Era certo que agradariam. Por isso, melhor do que falar de renomados do passado é destacar o lançamento que mais encheu os meus olhos. Antes que fosse à livraria, o exemplar chegou pelos Correios, presente do querido amigo Goiaba, quase um rondoniano a essa altura.

Foi um livro que pude ler sem pressa e até reler antes do fim, só para saborear mais a sua prosa envolvente e a narrativa vigorosa. Confesso que mergulhei fundo no labirinto de muros e nas terras gélidas da Rússia contemporânea enquanto saboreava este último romance do escritor e jornalista Bernardo Carvalho, obra do polêmico projeto Amores Expressos e ainda melhor (na minha modestíssima opinião) do que os já bons Nove noites, Mongolia e O sol se põe em São Paulo.

O filho da mãe é daqueles livros com começo, meio e fim (acho que entendem o que quero dizer). Ele se fecha. A história de amor e dedicação de mães que sobrevivem para salvar a pele dos filhos da guerra entre Rússia e Chechênia comove porque serve com o pano de fundo para temas muito mais gelados do que São Petersburgo. Das páginas de O filho da mãe emerge a força do preconceito, do ódio, da homofobia e do desamparo.

Em meio a tantos espinhos, o livro provoca uma experiência melancólica e triste no leitor: o romance bate na tecla das coisas que perdemos. Mais: do que já está perdido. Impossível enfrentá-lo sem que nossa mente não se acomode no terreno mais fértil para pensar em como e até quando conviver com o que se perde.

Agradeço a Bernardo Carvalho por me fazer experimentar no drama de Ruslan e de seus personagens parceiros uma possível beleza e urgência de vida quando percebemos que nada é mais certo neste mundo do que a chegada, dia que for, do que sempre esteve perdido. Tal qual está dito em Amores Perros, na filmagem de Iñarritu, “somos o que perdemos”.


Responde a verdade: você esperava um grande trabalho do Otto? Preciso dizer, o pernambucano me fisgou com Certa manhã acordei de sonhos intranquilos. Aos 49 do segundo tempo, na metade de novembro, resolvi baixar o disco e não acreditei no que ouvia. O sujeito levou um tempão para gravar de novo e fez um baita disco, não dá para negar. Para a turma do amendoim que repetia "ele não tem mais nada de relevante para oferecer", a resposta veio literalmente em bom som. Está guardada aí, em 10 músicas de primeiríssima categoria para destilar mágoas. Mais um daqueles discos originais e, o melhor, sem cheiro nem cor de ET.
Evidente que se trata de um álbum com forte apelo pessoal e autoral. Ainda bem, não? E, claro, o nome (inspirado na abertura da Metamorfose de Kafka) indica que o mangueboy mudou.
Existe tanta dor e beleza nas letras, mas também existem parcerias felizes e um inesperado caminho próprio das melodias. Quando menos se espera, você está dando uma volta por aí, cantarolando um coral lindo de morrer. Desafio qualquer um com alguma capacidade auditiva a ouvir e não se apaixonar por um par dessas músicas. Ouça aqui, meu filho.

Para mim, o melhor álbum do ano é do Otto. '6 minutos' bateu de jeito, 'Filha' doeu que só, 'Naquela mesa' ganhou versão bamba e 'Agora sim' encheu o meu coração. Obrigado, Otto. Que muitos e muitos shows possam coroar este belo trabalho. Coisa finíssima, disco de verdade.
Não há muito o que falar sobre o cinema de Tarantino. E eu não vou dissertar sobre a sua estética. E Bastardos Inglórios é um p#t@ filme. E são histórias infames que colam o telespectador na poltrona. E quem não gostou deste filme-sátira merece arder no fogo do inferno. Ponto. Existem cenas que jamais saíram da minha cabeça. Que Tarantino continue a produzir essas drogas viciantes.

Para mim, Pulp Fiction dificilmente será batido. Trata-se de um filme que eternizou a Mia (Uma Thurman) levando injeção cavalar de adrenalina no coração, miolos estourando e espirrando sangue dentro de um carro ou a mesma Mia acompanhada de Vincent Vega (John Travolta) na lanchonete que vende um misterioso milk shake de 5 dólares.

Porque lembrar Pulp Fiction? Porque certamente guardarei na mesma gaveta de lembranças cenas como a do excelente coronel nazista Hans Landa (do genial Christoph Waltz) a comer gulosamente seu strudel com creme enquanto conversa com Shoshanna Dreyfus (Mélanie Laurent), a judia que viu toda a família ser exterminada pelo próprio Landa. Os dois fazem ainda outras cenas espetaculares, como a que Landa pede para Shoshanna calçar o sapato que serviria como prova para incriminar a pobre garota.

Aliás, Hans Landa foi o mais apaixonante vilão do ano. Já Bastardos Inglórios foi o melhor e mais original filme que pude assistir em 2009. Até mesa redonda de futebol na TV parou de falar do Brasileirão para elogiar o filme, que chamaram de um "gibi filmado". Quem viu sabe que não estou mentindo. O jornalista mais apaixonado por Tarantino se chama Juca Kfouri. O segundo mais apaixonado é o Fernando Calazans.

Obama disse que Lula é o cara. Isso porque ele não conhece nenhum roteiro do Tarantino. Ainda.


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Amigos sobreviventes, desejo para vocês um feliz 2010, o último ano de uma década muito louca.




20 novembro 2009

18 novembro 2009

'Is This It', o melhor da década

Final de 2009 e já é de se esperar o aparecimento de listas dedicadas a primeira década deste século. Pois a revista New Musical Express publicou a sua lista dos 100 melhores álbuns da década. Ranking bacana, pena que sem brasileiros (pelo menos entre os 50 primeiros). Neste ponto, prefiro apelar para os 1001 discos para ouvir antes de morrer.

O maior álbum da década na lista da NME ficou por conta de Is This It, o disco de estreia do Strokes no já distante 2001. Eu tinha 17, 18 anos, e Is This It era um disco promissor, coisa rara para a época.


Engraçado lembrar o que falavam dele. "A salvação do rock" foi o mais comum dos comentários. Acho o seguinte: estávamos muito maltratados com o caminho tortuoso e artificial que o rock havia tomado na segunda metade dos anos 90. E Strokes tinha tudo aquilo que o rock jamais deve esquecer no porta-malas, a começar pela rebeldia.

A capa de Is This It mais vendida no mundo vem com a bela foto lateral deste bumbum. Nos EUA, ela foi vetada. Puritanismo bobo, coisa daquela América bushiana O tempo passou e dá para achar que o Strokes nem era tão rebelde e ameaçador como parecia ser. Mas era rock, o que bastou e basta.






Hoje, vou ouvir New York City Cops para homenagear a escolha da NME e recordar a batida sem variação, os cabelos desgrenhados e a cantoria bêbada. Isso tudo parecia tão demodé em 2001 - e era justamente bom.

1. The Strokes - "Is This It"
2. The Libertines - "Up The Bracket"
3. Primal Scream - "Xtrmntr"
4. Arctic Monkeys - "Whatever People Say I Am, That's What I'm Not"
5. Yeah Yeah Yeahs - "Fever To Tell"
6. PJ Harvey - "Stories From the City, Stories From the Sea"
7. Arcade Fire - "Funeral"
8. Interpol - "Turn On The Bright Lights"
9. The Streets - "Original Pirate Material"
10. Radiohead - "In Rainbows"

veja a lista completa aqui

14 novembro 2009

"Yes, we créu"?

A The Economist de 14 de novembro dedicou 14 páginas ao Brasil. Será que, para a revista, o País finalmente se tornou varonil? Leia O Brasil decola e o que a britânica pensa sobre "a grande história de sucesso da América Latina". Os números melhoraram, mas, às vezes, a cabeça coça. Não sei onde fica, afinal, o Brasil que esses gringos visitam.




13 novembro 2009

40 vezes Allen

Não sou muito de ter ídolo. Mas os anos passam e fica difícil esconder quem admiramos. Dos mais próximos nunca consegui esconder o diretor dos filmes que me fisgam bobamente. Ele, Woody Allen. Hoje acordei atrasado para o trabalho, bem que podia ser sábado. Mas, foi só bater os olhos no Guia da Semana do Estadão para o humor voltar. O CCBB daqui vai dar um presente de natal.

A Elegância de Woody Allen será exibida de 18 de novembro a 13 de dezembro aqui em São Paulo. Uma mostra com 40 filmes produzidos entre 1965 e 2009. Annie Hall (1977) na telona será a cereja do bolo. Pelo menos para mim.

01 novembro 2009

Sempre vale a pena escrever com prazer

O professor e amigo Marcelo Bulhões publicou mais um livro, A ficção nas mídias.

É uma leitura agradável sobre como as diversas formas narrativas sempre estiveram incorporadas a uma ou outra fonte de ficção - até nos mais novos games. Para falar dela, a ficção, Bulhões percorre com habilidade títulos, teoria literária, esquemas e, certamente, tirou da prateleira alguns importantíssimos exemplares impressos e audiovisuais que enchem os seus e tantos outros olhos e ouvidos em todo o mundo. Foi uma delícia ler este livro. Cada página me levava a recordar as suas aulas, inspiradoras. Certamente, escrevê-lo, no ir e vir de ideias, relendo a história do ficcional, ali perdido em sua biblioteca, e em imagens, Bulhões também deve ter tido uma deliciosa experiência.

Em aula, a revelação do seu variado fascínio - de western italiano a quadros de filmes como Os incompreendidos (1959) -, tenho certeza, já fazia parte desta trama toda que deu caldo, virou livro e agora está aí, para todo mundo ler. Tudo fez algum sentido.

E é para tomo mundo ler. Este livro pode inspirar olhares e ajudar no desenvolvimento de muitas pesquisas em que o ficcional midiático se apresenta no meio do caminho. Mas, ele interessa a cada pessoa que, no fone de ouvido, nas telas, em páginas de papel ou virtuais, é capaz de se perder neste jogo alucinante. Você sabe, eu sei: a ficção, sobretudo no audiovisual, provoca em nós o reconhecimento, o estranhamento ou um misto dos dois. Seja como for, ela sempre tira os nossos pés do chão.

27 outubro 2009

A oposição, por Nassif

Quero indicar um post do Nassif. Não estou apenas sem tempo, o Nassif escreveu algo interessante. Mais um capítulo do suicídio da oposição no Brasil. Na verdade, nossa oposição, direita ou esquerda, no passado e hoje, nunca foi uma Brastemp.

"José Serra assumiu a herança de FHC. Juntos, vieram colunistas políticos e econômicos adeptos da internacionalização, do suposto papel civilizatória dos mercados, do racionalismo vesgo contra qualquer forma de gastos sociais, tendo como tacape um iPod que repetia mantras, slogans e refrões. Jamais conseguiram entender o país como um todo, composto de mercados eficientes, sim, mas também de políticas públicas, políticas sociais, indústria, agricultura, movimentos sociais."

Leia o texto todo aqui.

04 outubro 2009

Mercedes Sosa nos deixou

"Nesta data, na cidade de Buenos Aires, Argentina, temos que informar que a senhora Mercedes Sosa, a maior artista da Música Popular Latino-americana, nos deixou", afirma a nota da sua família. Esta é uma verdade. Alguns artistas não morrem, eles deixam este pequeno mundo para trás e também nos deixam para brigar um pouco mais. La Negra se fue.

Nos comentários na internet, há um consenso de que alguns artistas jamais morrem. Se estão vivos, no caso de Mercedes, é "para siempre".

Essa segunda verdade diz respeito às grandes esperanças porque Mercedes também as deixou como lembrança para qualquer geração. Pelo menos aquelas grandes esperanças que couberam na poesia.

Mercedes Sosa morreu hoje, aos 74 anos.

10 agosto 2009

O desanuviado ar de São Paulo - agora só falta o Tietê...

Ah, a Lei Antifumo... Quem é de São Paulo já deve ter visto o Dr. Dráuzio Varela na televisão, dizendo que a lei é uma boa oportunidade para as pessoas pararem de fumar. Como inveterado que já foi, ele deveria saber que isso só pode ser piada para provocar ainda mais a ira dos pobres fumantes despejados no olho da rua.

Antes que me crucifiquem, saibam que concordo com a medida. É muito difícil esperar que as pessoas tenham noções avançadas de educação a ponto de evitarem a fumaça em ambientes fechados e coletivos, sem ventilação e escapatória para quem não se arrisca a dar bafuradas e entupir os pulmões. Eu, como fumante, já conheço meu tenebroso destino: enclausurado nos banheiros. Ou na rua. Eu gosto da rua, não tenho problemas com essa nêga.

Se bem que alguns estabelecimentos já apontam alternativas. Na sexta-feira, ingressei nas primeiras horas do fantástico mundo do ar limpinho ao som de samba rock, no Bar Camará. Um mezanino à céu aberto era o refúgio dos fumantes. Havia 2 bombeiros na escada. Situação inusitadíssima. Se eu descesse com cigarro aceso eles acionariam um extintor?

Até segunda-feira, 50 locais já tinham tomado chicote na mulera.

Mas nada é mais pitoresco nessa jornada contra o tabaco do que o logo da lei. Eu não sei quem é, mas o marqueteiro criador dessa imagem só pode ser um fumante muito P*!# com as manias de bom ar do Serra.


Gripe social



Senti de perto os efeitos menos colaterais da Gripe A na semana passada. No metrô.

Na estação Paraíso, onde todos fazem baldeação, uma mulher muito apática se escorava no ombro do seu namorado, marido, amigo, algo assim. Ao entrar no vagão, sentaram-se perto da janela – ela com orelhas profundas, cara de dor, fraqueza e a máscara cirúrgica.

Na época da Virada Cultural, há três meses, vi muita gente com essa máscara na rua, no Largo do Arouche. Era um tanto ridículo a pivetada mascarada e cantando Wando. Parecia fantasia coletiva que todos deveriam ter combinado pela internet ou ter tido a mesma magnânima ideia. Há três meses, a gripe era coisa do México.

Mas, no metrô era coisa séria. Tanto que a mulher entrou sem ser percebida, mas, bastou passar duas estações para as pessoas terem todo o tempo do mundo para tirar os olhos do vazio e perceber a mascarada doente.

As máscaras devem ser usadas somente por quem está infectado. E isso, hoje, só não sabe quem não quer.

Por isso, ou porque pouco desejamos uma morte tão estúpida, as pessoas se afastaram, vociferavam olhares de reprovação. “Como pode essa mulher com a tal gripe aqui, justo no metrô onde estou?”. Nos olhares parecia que nada poderia explicar o fato da mulher não ter um carro para se deslocar ao hospital. Aos poucos, os assentos mais próximos ficaram desocupados. As pessoas se recolhiam.

Imaginei uma ficção, o mundo em histeria e tomado pela peste. Pouca coisa mudaria. Todos ainda estariam sobrevivendo no eterno isolar-se. Com gripe ou sem gripe, você também já deve ter visto e feito algo assim.

07 julho 2009

Cristiano


"Boa noite. Disse aos meus amigos que tentaria ser natural. Estou feliz por estar aqui. Cumpri meu sonho de criança, que era jogar no Real Madrid."

Foi assim que o jogador objeto da maior transação da história do futebol, Cristiano Ronaldo, cumprimentou a torcida madridista.

Cristiano Ronaldo desperta muitos sentimentos contraditórios. Já vi muita gente dizendo que não passa de um "mascarado" - esse é um comentário realmente engraçado e bem brasileiro. É verdade que o português sempre é lembrado pela constante preocupação em aparecer bem nas câmeras a cada levantar do gramado, ou após algum lance sem maiores sucessos.

Eu não sei se Cristiano Ronaldo é o maior craque do planeta bola, se será lembrado pela posteridade como foram os grandes nomes do futebol. O rapaz joga bem quando quer jogar. Mas não pensei nisso quando vi a sua apresentação ao Real Madrid, este Hopi Hari do futebol. Afinal, quando a grande manchete do dia é Una presentación de 'Record Guinness', algo anda bem errado nos holofotes do futebol.

Os olhos de Cristiano Ronaldo sempre me chamaram a atenção. Não simplesmente os olhos, mas esse olhar titubeante, que só me faz pensar que ali se esconde o menino pobre da Ilha da Madeira.

Preste atenção. Sempre é possivel ver a pobreza da infância naquela olhar. Cristiano Ronaldo poderia ter sido bailarino se não fosse jogador, ele já disse. Fã de Maradona e Figo, ele pode negar tudo em Madri, ou seja lá onde o dinheiro o levar. Ele jamais poderá esconder aquele olhar.

"Vou mostrar que valho o que pagaram por mim", disse Ronaldo, o português, na Espanha.

06 julho 2009

Meu último, pequeno e inofensivo vício

Alguém me perguntou há alguns dias o que tenho escutado. Não há nada que tenha entrado mais no meu ouvido nas últimas duas semanas do que as músicas do Wolfgang Amadeus Phoenix, o último álbum da banda francesa chamada, é claro, Phoenix.


Sei que eles já se apresentaram no Nokia Trends por aqui, mas eu não sou habitué de festivais e tampouco entendido no universo mais recente da música. Só sei que o pop romântico e um pouco deprê da banda - que tem mais méritos do que o vocalista casado com Sofia Coppola - é contagiante. Os gurus da música podem dizer que as canções são boas o suficiente para sempre se ouvir no carro. Bem, eu não tenho carro, mas nem por isso deixo de fazer o Phoenix embalar as horas de trabalho sentado à frente do computador. Elas, as horas, passam voando com eles. E com leveza. Vejam se tenho razões para tanto.

26 junho 2009

O rei do pop que se foi

Você achava que o piadista Meia Hora já tinha se superado com a história do Clodovil virou Purpurina? Então veja a capa do jornal carioca para a morte de Michael Jackson:



Brincadeiras à parte, o ícone permanecerá. Michael Jackson é a fórmula terminada e maior de um período que jamais se repetirá.

O pop, esse estranho ente da vida moderna, não terá, com ou sem a morte do seu rei, a repetição daquelas filas intermináveis para shows e lançamentos, a espera pela face da vez e o mundo paralisado para ver os novos passos de um videoclipe ou os novos assessórios. Pulseiras, chapéus e luvas se transformariam, da noite para o dia, em amuletos vendidos e reproduzidos por toda a parte.

Essa força da indústria só foi possível com poucos. E foi talvez na vida torta de uma criança (que não pôde ou não desejou crescer), a terra fértil onde a música e seu mainstream conseguiram produzir o marco maior.

Quando comecei a perceber alguma coisa no mundo, já existiam os truques mais pirotécnicos em videoclipes, aqueles passos cujos pés deslizavam para trás e as imitações de Michael sempre que se falava em pop. Ele já tinha mudado muita coisa nesse mundo.

Hoje, com tanta coisa acontecendo e se falando sobre ele, parece que é mais um dia daquela época sem MP3 e redes sociais, quando todos esperavam pelo novo vídeo do astro. Como ele se inclinava daquele jeito quase beijando o chão?

A expectativa pelo novo significava ansiedade guardada para conferir a novidade em dança, música, expressão e em indústria. Esse tempo já não existe mais. Não sei se era melhor ou pior. Só sei que não existe.




17 junho 2009

'Ménage à trois' paulistano


A noite fria do meio de uma semana de junho acoberta o encontro mais provável na proximidade das grades que separam o estacionamento de dois prédios. Nessa junção de feudos, os porteiros dos edifícios se distraem ao som do celular. O pagode que repete a mesma ladainha em todas as faixas rola solto, afinal tudo indica que a essa hora há pelo menos dois síndicos a roncar. É ele, o pagode, que chama a atenção das mulheres na esquina da Haddock Lobo com a Fernando de Albuquerque. Desde que inventaram de colocar tocadores de MP3 nos telefones, seus autofalantes desenvolvem a galope a potência comparável a das igrejas mais eufóricas e logo tomam conta do silêncio que jamais existiu nos elevadores, ônibus e corredores de São Paulo. Já os encontros nos fundos dos prédios, como esse no perdido da madrugada da região do Baixo Augusta, existem desde que a Augusta é Augusta ou desde que inventaram de construir prédios em São Paulo.
Porque enquanto a molecada bebe e senta nas calçadas imundas antes de chegar a hora do metrô, uma das mulheres da esquina parece desistir da jornada de trabalho e fazer do celular dos porteiros o seu happy hour. “Ô gato, isso aí não toca mais alto?” é o equivalente a “Oi, meninos, como vão?”.
A conversa que seguirá vai render sorrisos sinceros e risadinhas de confidência. A mulher vai contar que estava ficando com um cara que era brochante porque carregava pra cima e pra baixo uma bóia de gordura na cintura. Vai revelar que agora pega um coroa de 54 - que "dá no couro" - e lembrar as proezas da noite da Parada Gay. "Tu viu que teve bomba?". Seus ouvintes atentos oscilarão entre a atenção, o carinho medido e a fala mole. Vão duvidar da eficiência do coroa de 54, perceberão que na esquina já rareiam as outras colegas de trabalho e nem imaginarão que na carteira da companheira de pagode no celular pode haver a foto de duas filhas que dormem.
Na despedida: “Deixa eu ir, preciso pegar homem”. O porteiro mais baixo vai se despedir rápido, mas o de bigode já não oscilará tanto, dando vez só para o chamego, num rasgo de esperança diante da possível futura mulher ou da inimaginável transa sem despesa. “Você vá dormir, baby, descansar esse rostinho, vai”.
Ela dá um sorriso para partir. Sobra um "tchauzinho" para os gatos guardadores de prédios e uma dúzia de ilusões. Ela sabe que nenhum deles traz bóias de gordura na cintura, mas quando vira a esquina está vidrada no coroa de 54. Sabe-se que sumiu de vez porque pouco demora para o pagode baixar e a fala mole sumir. “Essa mina é fogo”, fala um. “Ela recebe o cheque e ainda chama de meu amor”, responde o do bigode.

Ilustração: Laerte

08 maio 2009

Por que Oasis?


Achava engraçado o jeito de andar de Liam Gallagher. Uma amiga mais experimentada no rock’n roll reconhecia nas mãos cruzadas para trás a marca particular e necessária a todo front man do bom rock. O ano era 96 ou 97. Os entendidos em música falavam de um tal britpop para denominar o som da banda que estreou para preencher a lacuna deixada por Cobain e todos da onda grunge. Perto de Nirvana o quinteto de Manchester tinha um repertório de músicas compridas e cheias de solos elaborados. Quando Be Here Now caiu em minhas mãos, a voz de Liam apenas começava a arranhar e deixar para trás o timbre adolescente da estreia em Definitely Maybe. Não demorou muito para eu admitir maior simpatia pela cantoria do irmão-compositor, Noel Gallagher. Apesar da “descoberta” tardia, o Oasis já era idolatrado em boa parte do mundo; na Inglaterra Wonderwall e Don’t Look Back in Anger eram entoados como hinos britânicos e a mídia especializada, ainda sem o alcance da internet, se preocupava em compará-los com os Beatles. Quando o assunto cessava, era hora de repercutir alguma rixa entre os irmãos ou polemizar as declarações nada modestas dos chapados Gallagher. Não necessariamente nessa ordem. Todo álbum novo recebeu o mesmo tratamento. É assim até hoje.

Existe alguma combinação formada por idade, circunstância e uma boa dose de estupidez sincera que nos leva a viver semanas, meses e até anos mágicos em determinada etapa da vida. Para mim, começou a acontecer por volta de 3 anos após cantar Stand By Me pela primeira vez. Ao lado de quatro amigos (com a mesma combinação de inflamáveis motivos) embarquei nas primeiras noites com sabor de cerveja e cheiro de cigarro, de bar em bar, ou do bar para algum esconderijo alternativo e hype (apesar de ninguém saber o que era ser hype na época). Não havia desculpa melhor para se criar naquele tempo. Liam já cantava há uns 5 anos: “I was looking for some action but all I found was cigarettes and alcohol.” Foram as primeiras noites com o carro dos amigos. A cidade não era Manchester, era Fortaleza, mas o calor e a brisa noturna não nos impediam de formar um coro a 100 km/h para gritar “you and I are gonna live forever” mesmo sem ser ouvido. As primeiras transas também me lembram Oasis. Ou Oasis me fazem lembrar delas. No vídeo ou no aparelho de som certamente rolavam Gas Panic e Supersonic. Não, nunca fui um fanático. Como Noel diz, “please don't put your life in the hands of a rock'n roll band who'll throw it all away.”



Sem querer polemizar, como ainda insistem os jornalistas de música sem inspiração, Oasis foi o meu Beatles. Se melhor ou não, parecido ou cópia, foi o que me coube como trilha sonora nos tais momentos mágicos. As composições de Noel cairiam feito luva nas noites sem rumo. Naqueles anos ou meses, nada mais provável e recomendado do que querer ser uma estrela do rock por uma noite, nem que fosse apenas no coro soluçado e infantil de uma canção que começa com “I live my life in the city/there's no easy way out/the day's moving just too fast for me.” O miolo da noite reservaria viagens temperadas com Champagne Supernova e Magic Pie, tudo para acordar do sábado de frente para o mar, renascido, azedo, sem conversas protocolares e no embalo de Sunday Morning Call. Oasis nos esperava na próxima parada, uma semana depois, para completar o cenário da noite, sempre ela.

Todos se espalharam pelo mundo, mas nesta semana conversei com um amigo desse grupo. Ele me desejou um “bom show”. Há mais coisas por trás disso, mas somente nós, as crianças cheias de motivos inflamáveis, saberemos do que se tratam no final. Como em todo MP3 e oportunidade de escutar Liam cada vez mais rouco nos últimos anos, vou berrar bem alto no sábado, na minha segunda oportunidade de ver Oasis ao vivo. Não tem nada a ver com aquela adolescente vibração na frente da tevê, vendo o DVD do antológico show dos Gallagher em Wembley. Mas na mente essa cena certamente estará viva, como todas as outras que eles patrocinaram.
Porque não adianta querer discutir o ar blasé, a personalidade poser e as declarações marqueteiras do mainstream. Oasis, apesar de já soar antigo, pode até virar um Eagles que toca para tiozões daqui a algum tempo. Noel já disse que a banda acaba quando Liam ficar careca (o que já está com meio caminho andado). Nada importa. Há poder suficiente nas guitarras em alta e em versos como “talking to the songbird yesterday/flew me to a past not far away/she's a little pilot in my mind/singing songs of love to pass the time.”
Na pista e diante do palco, eles serão desculpas mais do que recomendadas para acionar algumas paisagens, gostos e cheiros que ficaram gravadas para sempre em mim como o registro da mais jovem passagem da minha juventude. Vez ou outra, Liam me lembra: “hey! stay young and invincible”.

01 maio 2009

É 'de grátis' em Sampa


São Paulo não é um cidade barata, mas sempre há opções quando a grana está curta. Todo dia vejo gente reclamando da dureza no bolso, eu também faço o mesmo, apesar de saber que por aí, nas esquinas e becos do Centro, é possível "se virar" muito bem.
A Virada Cultural que acontece no fim de semana é só um exemplo, um marco do lazer na faixa. Não é todo dia que 4 milhões de pessoas saem à rua sem nóias e sem gastar para ouvir música, e das boas.
No ano passado me diverti e me aborreci com a Virada. Não sei ainda se vou me enfiar no Centro na madrugada de sábado.
O que a Virada tem a ver com toda essa conversa mole? Não estamos acostumados à gratuidade cultural. Sabe aquela conversa pateta 'o que é de graça está estragado ou não é tão bom assim'? Isso acontece no supermercado, na feira, na viagem, no cinema e no bar. Uma idiotice só.
Descobri há uma hora o blog São Paulo é Grátis, que promete "programação gratuita ou de baixo custo na cidade de São Paulo".
Você, morador de São Paulo, deve saber que o clássico dos guias da gratuidade cultural paulistana é o Catraca Livre, mas, se procurar, é fácil achar mais coisa do tipo. Se fico pensando em quem não tem nem acesso à Internet? Sim, penso, mas ainda não sei como divulgar o evento para este público. Solução boa seria entender que a cidade é muito maior do que a região central e começar a levar eventos para a periferia. Mas, sem aquela história de fazer o morador da Zona Leste ficar por lá para não causar confusão na cidade. Isso é o mais nojento pensamento de segregação. Na própria Virada de 2007 teve gente com esse desejo íntimo depois do quebra-quebra na Sé.
Fico pensando nas cidades pequenas do interior, com suas carências de programação cultural, como postou o Vitamina B. A Paulicéia, ultrapassadas as datas no calendário como a Virada, esquece do Centro, esquece de ocupar alguns espaços, esquece de fazer valer a absurda concentração de arte de graça que os "verdadeiros" artistas encenam para meia dúzia de espectadores. Todos os dias.

23 abril 2009

De cabeça

Há algum tempo não estou na Universidade. Pretendo retornar. Quem sabe um mestrado? Não tenho previsões.

No programa Invenção do Contemporâneo desta manhã, na TV Cultura, ouvi o sociólogo Bernardo Sorj falar de um tema picante feito chilli: O Mal Estar Metropolitano. O papel da Universidade foi o que mais ficou na cabecinha.

O indivíduo está confuso diante da falta de referências? O moderno sistema de troca de informações cerca e pressiona as pessoas? O individualismo cresceu? A tecnologia virou o motor das relações sociais?
Se você assinalou como verdadeiras "todas as alternativas anteriores", sabe que não é difícil concordar com tudo isso. Uma meia dúzia de livros já ajuda. Ou não.


Sorj concorda comigo e eu concordo com Sorj. Essas coisas satânicas, palavras diabinhas como "consumismo" não podem ser tratadas pelos intelectuais como uma monstruosidade, um troço a ser pisoteado sem maiores preocupações e comprometimentos. "Porque o pobre precisa se matar para comprar um celular? Porque ele precisa trabalhar e para trabalhar se exige que seja localizado", disse Sorj.

A tecnologia está no meio de tudo o que fazemos. Da diálise no hospital ao simples acerto do horário do futebol com os amigos. Mas tecnologia custa dinheiro.

O consumir tecnológico não é um bicho-papão somente. Ele acorda todo dia, dá "bom dia" e "boa noite" (às vezes!). Ele é o chiclete que nos une ou separa na sociabilidade mais atual.

Quando boa parte dos oráculos dos templos do saber vão perceber que há uma abismo entre as ilhas acadêmicas e o resto do mundo? Sei que são vários, mas também não é um só o mundo em que a tecnologia é comprada e comparada por yuppies e catedráticos?

Eu sei que não é simples. Eu sei que não são todos. Eu sei que este é um post pires com pretensões faraônicas.

Cá, da minha ignorância e mundanice, viajei com um consumo: a Universidade comendo um pouco mais das ruas; e as ruas dando uma mordida com gosto na Universidade.

Mas, vou embora, deixo de bobagem. Caetano diz: "Eu canto com o mundo que roda (...), mesmo que eu não cante agora".


20 abril 2009

Simonal Total

Um dos mais recorrentes lugares-comuns nacionais é a célebre frase "o artista brasieliro só é lembrado e reconhecido depois de morto". Mas o clichê se confirma vez ou outra, e é melhor aproveitar quando o artista é um gênio esquecido, apesar de amado absurdamente no passado. Este ano, por exemplo, imprensa e indústria precisaram de uma efeméride para resgatar e promover Wilson Simonal. Ele completaria 70 anos de idade se estivesse vivo.



Segundo Nelson Motta, Simonal foi um dos artistas mais injustiçados do País, que "negou até morrer que fosse dedo duro". A declaração se refere à década de 1970, quando o cantor carioca foi acusado de colaborar com a ditadura. Perto do fim da vida, Simonal exibia um documento do Dops para provar a sua inocência. "Assassinos, torturadores, assaltantes, sequestradores. Todos foram perdoados pela anistia. Menos Wilson Simonal", lembra Motta.

Para quem quer conhecer a produção e a vida de Simonal, há várias opções. O documentário Ninguém Sabe o Duro que Dei, rodado no festival É Tudo Verdade do ano passado, promete mostrar como o cantor foi do céu ao inferno. Já para quem prefere ler a história do cantor, a editora Record lançou a biografia Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga. E quem pode gastar com discos, a opção é a caixa Wilson Simonal na Odeon: 1961-1971, que traz o inédito CD México 70, álbum que Simonal gravou antes da Copa do tri canarinho.

Se não der para conferir nada disso, vale caçar nos sebos, ouvir pela internet, vale tudo. Escute Simonal, nem que seja no Por Toda Minha Vida, da Globo. Neste 2009 só não vale deixar de conhecer o som do cara que comandava a massa. Para os mais exagerados, "nosso Ray Charles". Nas palavras de Nelson Motta, "um negão cheio de atitude”



Leia mais:

17 abril 2009

15 abril 2009

A feira de Michael



























Se fosse na semana passada, este post seria assim:
Você, fã lunático, rico e sem problemas com a crise. Estará em Beverly Hills daqui uma semana? Se sim, a vida está uma moleza, não? Bom, aproveite porque você pode comprar uma luva que é uma pechincha. Michael Jackson, aquele branquelo que vai fazer mais show esse do ano que o Circo Plift-Plaft, está leiloando duas mil tranqueiras. Entre móveis, quadros, estátuas, tronos e roupas inclináveis, o rei do pop vai vender (corra! corra! é só hoje na casa da Julien!) a famosa luva branca de "Billie Jean", usada num já distante 1993. Naquela época Michael nem era tão branquelo como hoje.

Não, o velho nariz de Michael Jackson não está à venda, mas há vários brinquedinhos da Neverland, o rancho que um dia já foi a casa do artista. Hoje, ele é um cigano. Uma loucura viver "so dangerous", Michael. Vai morar em Londres por 8 meses e alugou uma mansão de 28 quartos com um depósito de 1 milhão de libras. É preciso vender até o dente para pagar tanta estripulia.

Mas o post é dessa semana:
Não é que o Michael decidiu cancelar o queima-tudo na Califórnia? Até um personalizado Rolls Royce tava no sacolão. O diretor da casa de leilões Julien's Auctions disse que tudo foi um acordo e a coleção será devolvida ao cantor. Michael vai colocar tudo na mansão em Londres?

Eu sabia que era uma pechincha. A luva de Billie Jean estava avalliada em 100 mil dólares.


























Pouco depois de anunciar a série de 50 shows que fará em Londres a partir de julho, os ingressos se esgotaram. Mas uma das pérolas para essa temporada, além de animais que Michael promete levar para as apresentações, são as mágicas do David Copperfield! Sim, o mágico estará no palco. Será que foi ele quem fez uma "ilusãozinha" na conta de Michael para acabar com a dívida supimpa e suspender a feira livre do espólio real?

Agora, você, fã lunático, rico e sem problemas com a crise. Pode se matar por pouco. O "leilão do século" não vai acontecer. Você não vai comprar nada disso.

foto1: Gabriel Bouys/AFP foto2: Matt Sayles/AFP

07 abril 2009

Terremoto

179 mortos, 1.500 feridos e cerca de 17 mil desabrigados é o saldo atual do terremoto de L'Aquila, no centro da Itália. Mais forte do que os números são as imagens de destruição e a notícia do descaso com os comunicados dos sismólogos italianos. A prefeitura da cidade a 95 km de Roma considerou que o alerta era "brincadeira".
Terremoto não é um fenômeno que conhecemos. Os casos recentes daqui foram o abalo no norte mineiro em 2007 (uma criança morreu), dois tremores em Sobral (CE) no ano passado, e o inesperado terremoto de 5,2 graus na escala Richter em São Paulo, que completa um ano na próxima terça-feira. Não tivemos desastres e continuamos sem familiaridade com a situação. Até virou piada. Internautas diziam "eu sobrevivi" ou "o primeiro terremoto em São Paulo a gente nunca esquece". Nem de longe os abalos no Brasil estariam na lista dos piores da década.
Enquanto aconteciam as Olimpíadas de Pequim no ano passado, a contagem dos mortos no terremoto que atingiu a província de Sichuan, no sudoeste chinês, não tinha fim. Os números eram e são assustadores. Há 5 meses, o governo só havia identificado um quarto dos mortos, num desastre com pelo menos 90 mil mortes.
Sem viajar, impressiona como "descobrimos" o mundo através de catástrofes. Após a tragédia chinesa, aposto que é difícil esquecer nomes de cidades como Beichuan. A recente tragédia na Itália apresenta ao mundo como somos frágeis nesse tabuleiro. Apresenta uma L´Aquila destruída e triste. A cidade intacta está conservada em "O nome da rosa", no filme homônimo do livro de Umberto Eco.

Foto: Alessandro Bianchi/Reuters

05 abril 2009

Toda inspiração para o Peixe

E os 4 grandes estão na semifinal paulista, o que não se via há nove anos. Vibrei nervoso com o terceiro gol milagroso de Kléber Pereira, o verdadeiro salvador do Peixe. O pênalti bobo foi uma mãozona da Ponte. Perdão, torcedores da Lusa, quero ver Neymar, Madson e Kléber pra cima do Verdão de Luxemburgo.
Nessas horas é altamente recomendável evocar boas lembranças, como o Campeontato Brasileiro de 2002, conqusitado por Robinho, Diego e Cia. após uma classificação mais do que sofrida para as quartas. Ela veio na última rodada daquele que foi o último nacional com mata-mata. O Peixe pegou a 8ª vaga e levou o caneco deliciosamente contra o Corinthians.
Os alviverdes estão confiantes no Paulistão 2009. Na 1ª fase o placar de 4 a 1 doeu no lado santista. Espero que a Vila não seja impedida de ser o palco do primeiro encontro. Que Keirrison não esteja nos melhores dias também! E se é para lembrar de momentos inspiradores, vale a semifinal paulista de 2000. Deu Santos, o time da virada, pra cima do Verdão. Não era um time fantástico, como o atual também não é. Mas o feito é inspirador. O clichê dos clichês diz que "o futebol é uma...". Você sabe.


31 março 2009

Mentira de dia

Já sabemos: abril começa com o dia da piada obsoleta. Aproveitando as novas mídias, uma algazarra das fake news pode se repetir, sem dispensar, é claro, uma mãozinha da falta de criatividade em massa. O bobo dia da mentira é igual a conversa de elevador - sempre igual, sem graça e descartável. Um pouco da Guerra dos Mundos narrada por Orson Welles nas fábulas mais recentes? Pelo contrário, está programado. A data no calendário só para as enganações virou até desculpa para ações de marketing. Mas não adianta: mentira boa e sincera não tem dia.
Algumas verdades, se arruinadas, aliviariam a vida. Como não há meios de se conseguir uma máquina da spotless mind, alguns acontecimentos bem que podiam estar fincados no terreno da ficção. Há 45 anos, algumas imagens e notícias poderiam não ter sido reais.



(Editorial do Correio da Manhã, 1/04/64): "Só há uma coisa a dizer ao Sr. João Goulart: Saia!"

('São Paulo repete 32', de O Estado de S. Paulo, 1/04/64): "Minas desta vez está conosco (...) dentro de poucas horas, essas forças não serão mais do que uma parcela mínima da incontável legião de brasileiros que anseiam por demonstrar definitivamente ao caudilho que a nação jamais se vergará às suas imposições."

(O Globo, de 2/04/64): "Fugiu Goulart e a democracia está sendo restaurada (...) atendendo aos anseios nacionais de paz, tranqüilidade e progresso (...) as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-a do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal".

Mais aqui.

29 março 2009

Shit happens


No universo das inutilidades na web, o último site que conheci foi o Vida de Merda. Funciona assim: você posta alguma situação que vivenciou para receber comentários e avaliação. Os leitores podem dizer se "você mereceu" ou "é, sua vida é uma merda". Para quê? Não sei.

Os simpatizantes da ideia podem pensar "bom saber que outras pessoas também estão na merda", mas isso também não faz nenhum sentido. Sim, é mais um grande besteirol e só lá mesmo para ler um post desses: "Hoje, fui almoçar no McDonalds e pedi uma salada. O atendente olhou para mim e falou: bom, ao menos você está tentando".
Perceba que, se as imperfeições da vida são constantes, nada mais estranho do que perder tempo em relatar, rever ou acompanhar divertidamente as desgraças de cada dia. Concordo que são curiosas e essa é a garantia do sucesso do site. Certamente há ficcionistas anônimos que inventam as suas prórpias desgraças. É tudo uma grande... bem, isso mesmo.
Bizarro mesmo é constatar uma verdadeira competição para ver quem tem a vida mais cagada. Posso estar na contramão, mas acho que de lamentações o mundo está cheio e geralmente as desgraças que deveriam importar não vão para a internet. Não espero bobos alegres, mas um mosaico de lamentações virtuais é uma inutilidade. E inutilidades são inúteis (redundância necessária).
Em "Forrest Gump", o contador de histórias (Tom Hanks) atravessa os EUA correndo, reúne seguidores na sua empreitada e se depara com um publicitário atrás de slogan. Gump nos dá a receita: "às vezes, merdas acontecem". Não vale exagerar. C'est la vie.


Veja o 'shit happens' de Gump a partir de 4:18

28 março 2009

Dines mira Lula

A declaração "gente branca, de olhos azuis" disparada por Lula no encontro com Gordon Brown não causou apenas constrangimento ao premiê britânico, mas muita reação e algumas análises. Hoje, Lula tentou consertar e disse que se referia a imigrantes na Europa. Desde que ouvi a nova gafe do presidente insisti que ela não era apenas uma falta de respeito, um escorregão de etiqueta. Só hoje li o excelente texto do Alberto Dines, que tem toda a razão:

"A descortesia com o visitante, o premiê britânico Gordon Brown - escocês de nascimento, pele clara, olhos claros - é uma delas. O reacionarismo é outra. George Brown, à esquerda do novo PT, tem sido um ostensivo herdeiro da tradição social-democrata britânica, cobrador rigoroso das falhas do sistema financeiro britânico, defensor de soluções intervencionistas em favor da poupança popular. Como anfitrião e candidato a líder mundial, Lula deveria conhecer alguns dados que, aliás, qualquer leitor regular de jornais está farto de saber."

Leia a íntegra do artigo de Dines.

Foto: Evaristo Sa/AFP/Getty Images

26 março 2009

Hillary falando é coisa de cinema

No México, Hillary Clinton resolveu agradar as autoridades locais e afirmou que os EUA são corresponsáveis pela violência do tráfico. Desde 2007 são quase oito mil mortes envolvidas com drogas e armas contrabandeadas no país.
Um dia antes da visita de Hillary, os EUA lançaram plano de US$ 700 milhões para interceptar imigração, capturar drogas, armas e integrar agências. Uma medida recente é polêmica: jogar veneno nas margens do Rio Grande para conter imigrantes ilegais.
A declaração parece coisa de cinema. Lembrei do "thank you" à recepção mexicana para os norte-americanos retirantes de "O dia depois de amanhã". Ficção das grandes. Já que o mea culpa parece filme, de onde veio a inspiração de Hillary?

"Chamas da vingança": Na Cidade do México, uma onda de sequestros de civis relacionados ao crime organizado é o tema central do drama de John Creasy (Denzel Washington), um ex-agente da CIA manguaceiro e barrigudo.


"O Senhor das Armas": Yuri Orlov (Nicolas Cage) trafica armas, é perseguido e vive uma chicletona crise de ética com a fome e a miséria geradas pelo contrabando que articula. Com o binômio arma-droga e os lugares no mundo conectados pelo tráfico qualquer um acredita ter vizinho com AK-47. E ser o culpado.


"Traffic": O filme de Steven Soderbergh tem de tudo - tira corrupto, agentes da Drug Enforcement Administration (DEA), o cartel de Tijuana, traficante cornão e uma viciadinha americana que transa com outros doidões e torra a grana do papai-juiz-antidrogas.

25 março 2009

BBC Brasil com cara e corpinho 2.0

Foi lançado oficialmente o novo site da BBC Brasil. Novidades no conteúdo e nas ferramentas multimídia foram apresentadas hoje. A página da matriarca britânica na web já havia sido reformada há um ano. Mais interatividade, blogs e, na falta de melhores apelidos, "novas tecnologias". Agora é a vez da home brasileira.

Três promessas me deixaram satisfeito com a moderninha BBC Brasil: a rede continua a abastecer outros veículos; Ivan Lessa ainda está lá com tiradas impagáveis; jornalistas daqui desenvolverão mais conteúdo próprio. A série de reportagens sobre os BRICs (como são chamados Brasil, Rússia, Índia e China) é atração no novo portal. O especial estreia segunda-feira, dia 30.

"Conteúdo mais atraente para o público brasileiro", promete o CEO da BBC Brasil, Rogério Simões. Para a série "BRICs 2020", cinco repórteres brazucas viajaram para cobrir o futuro dos emergentes. Trouxeram fotos, textos e vídeos. Se você se interessa, fica a dica: a série terá entrevista com o economista Jim O´Neil, criador da sigla.

Déjà vu

Acompanhar as mudanças da BBC me lembrou a faculdade. Ah, as eternas discussões sobre a tevê pública! A British Broadcasting Corporation sempre citada como exemplo. "Se fosse uma BBC...", todos falavam.

Mas o mundo não passa só na tevê. Muito menos em 2020. E se na internet há quem promete algum jornalismo independente, vamos pagar para ver e torcer pelo êxito. Afinal, além de notícias do Brasil no mundo, qual outro site poderia dar chance ao Malabares de repercutir feitos como o leilão de calcinhas da Rainha Vitória?

Dê seu pitaco: um fórum recebe opiniões sobre o site.


23 março 2009

Soltamos a franga há 15 anos

Todo ano é igual. Falam e vão falar da inflação de 5000% nos meses anteriores ao feito; o atual governo colocará na mesa que sem a melhoria dos fundamentos econômicos e o superávit primário tudo iria por água abaixo; os louros da conquista, pelo menos nos holofotes mais apressados, cairão novamente no colo de FHC. Todo ano é igual.

Com uma data tão “redonda”, não tenho dado muita bola para o lengalenga de sempre. São 15 anos de Real. Da transição, quem não se lembra da novidade nas plaquinhas com os preços nas lojas? A Unidade Real de Valor (URV) parecia um palavrão, uma sigla misteriosa, poderia ser a União da Rabeca Violada, história da carunchinha, mais uma, já estávamos calejados. Bastou a comovida e boba felicidade com as cédulas novas por toda parte. Uma moedinha de 10 centavos comprava um pão. Não importa a denominação dada em cada recanto - cacetinho, francês, média, carioquinha, filão. O pãozinho nosso de cada dia valia uma moeda. Quer marketing melhor para um plano?



A moeda antiga e o "gaúcho" da nota de CR$ 5 mil foram para o saco em 1994

Eu tinha 10 anos. Acompanhei parentes num caixa do banco para trocar o dinheiro velho pelo novo. CR$ 2.750 valiam R$ 1. Uma moeda ou um beija-flor verdinho garantia um quilo de frango, outra carta na manga da propaganda estatal. Além de ser o bicho elevado à categoria de “herói da moeda”. Dias de glória para a frangaiada.

Hoje, o Roda Viva recebeu FHC. Ninguém lembrou do pobre frango. Para os temas mais espinhosos, o ex-presidente usou o “nosso” e o “nós”, mas o singular veio na hora dos louros. “Apanhei muito”, admitiu para explicar como aprendeu a adotar metas de inflação e câmbio flutuante. Como ninguém é de ferro, se rendeu: “Em vários momentos da vida não se faz nada sozinho”. Ainda bem.




18 março 2009

Clodovil acharia brega

Muitos se contentaram em falar como ele foi ferino e extravagante. Mas, polêmico que foi, Clodovil Hernandes não mereceria uma cobertura da sua partida com o mesmo solene conservadorismo dispensado ao noticiário dos falecimentos triviais. Mal saíra a nota sobre a sua morte cerebral e a Folha publicava na internet uma notícia relacionada ao futuro do personagem Clô. Protagonizado pelo ator Wellington Muniz (o Ceará), ele infernizou o deputado e estilista em vida.

Nessa mesma primeira hora de anúncio oficial do falecimento, um sem-número de posts com as palavras "clodovil" e "purpurina" dominava o twitter. Tanto que alguns usuários já demonstravam não aguentar mais a óbvia e batida "Clodovil não morreu, virou purpurina". Mas não adiantou, muita gente deu seu pitaco versado na piada pronta.
Para mim, o texto mais bacana ficou por conta do Tas, mas a pérola do dia foi do jornal Meia Hora, expert em sensacionalismo. O apelo dos twiteiros não adiantou para este carioca sem noção. A "purpurina" foi parar na capa. Clodovil acharia brega.


Radiohead cá entre nós

Faz uma semana que queria escrever sobre Radiohead. Falar sobre a primeira aparição deles no Brasil, a importância de discos como OK Computer, The Bends e In Rainbows. Além do som mais sincronizado com medos e apelos contemporâneos, trata-se da banda mais em dia com os novos rumos do mercado fonográfico. E isso não é pouco. Há dois dias, o Discografias faleceu no Orkut. A comunidade tinha 920 mil membros. Muitos se dizem órfãos. Por essas e por outras - a sonoridade da banda é a cara da década, dizem os mais entendidos - Radiohead e a sua vinda para o Brasil devem nos lembrar das desavenças existenciais, as tramóias da liberdade de ser-consumir e tantas outras "idioteques" dos nossos dias mais recentes.
Não posso fazer mais do que indicar o texto exato e em dia do Alexandre Matias, no trabalho sujo. Ele já disse tudo. Boa leitura. E o resto é só deixar por conta de Thom Yorke e sua trupe.

19 fevereiro 2009

Volto em breve

27 janeiro 2009

PCC e Camorra

No Estadão de domingo:

"O Primeiro Comando da Capital (PCC) aprendeu a se estruturar como empresa e sindicato do crime com integrantes da Camorra, um dos braços da máfia. As aulas foram ministradas pelos irmãos Bruno e Renato Torsi. Os camorristas ficaram presos quatro anos em São Paulo na década de 90. Em 1993, não só assistiram ao nascimento do PCC na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, no Vale do Paraíba, como ajudaram a organizar a maior facção criminosa paulista."

Leia mais.

25 janeiro 2009

Ronaldo, a gorducha e o (anti)marketing

Há uma semana, Ronaldo esteve comentando na cabine da Globo no Pacaembu. Apesar de ser jogo da pré-temporada, a emissora justificou a transmissão da partida entre Corinthians e Estudiantes, da Argentina, por se tratar de amistoso internacional com equipe brasileira envolvida. Mais uma vez, a Globo escondeu (mal) o eterno lobby exercido pela equipe paulista.

Fato é que já nos derradeiros minutos do primeiro tempo comenta-se a nova bola utilizada no jogo, a bola oficial do Paulistão 2009 produzida pela Topper. Segundo a fabricante, ela é inspirada na bandeira do estado de São Paulo e no brasão da Federação Paulista de Futebol (FPF). A opinião do craque é requerida e Ronaldo não foge. Não gosta do desempenho da gorducha. Acha a bola estranha, grande, os gomos diferentes e cores que, na Europa, não seriam permitidas, a não ser em jogos com neve.

Se fosse bola da Nike com as mesmas características Ronaldo teria dado a mesma resposta?

Se alguém recorda de críticas de Ronaldo a algum material da Nike, favor comentar e lavar a minha ignorância. A única que me vem à cabeça agora foi acidental e extremamente engraçada. Véspera da Copa da Alemanha em 2006. Quem não se lembra do episódio "Nike e as bolhas"? As repetidas cenas do atacante na beira do gramado com bolhas no pé esquerdo doeram mais no pé da fabricante. Um tiro dado pelo autêntico Nike boy. A culpa teve dona: a chuteira Mercurial Vapor, modelo confeccionado "sob medida" para Ronaldo.


Se as bolhas de Ronaldo formaram um verdadeiro manual prático do antimarketing, transmitido ao vivo para milhões de lares, o livro Invasão de Campo: Adidas, Puma e os Bastidores do Esporte Moderno, de Barbara Smit, relata episódios mais heróicos do marketing esportivo e do próprio nascimento dessa modalidade de negócios. A história de fundo do livro (à venda aqui) é a disputa dos irmãos Dassler que deu origem aos impérios esportivos Puma e Adidas. Entrevista com Barbara Smit? Leia aqui.


Um dos lances mais curiosos dessa história toda é a inauguração da competição das fabricantes pela conquista dos craques da Copa de 1970. É nesse momento que surge o tal Pacto Pelé - Puma e Adidas não disputariam o rei do futebol, uma espécie de acordo de não-agressão. A quantia a ser paga pelo brasileiro poderia ser exorbitante e perigosa para a sobreviência das marcas.


Mas, sabemos, Pelé calçou Puma, que burlou o pacto e conseguiu fazer com que o brasileiro se agachasse antes do apito do árbitro, por 30 segundos, para amarrar as suas chuteiras em um dos movimentos mais fantásticos dos bastidores do esporte. As lentes no México focalizaram a marca nos pés do jogador que não deveria ser disputado. A verdadeira antítese da cena das bolhas de Ronaldo, o descontente com as "cores para neve" da Topper.

Foto 1: Lancepress / Foto2: Reuters/ Foto3: viladoesporte

24 janeiro 2009

Blogs do Brasil




Rolou há uma hora, aqui na Campus Party, a cerimônia de premiação do Best Blogs Brazil 2008. Muita gente faltou, inclusive o dono do grande vencedor, o Blog do Tas. Com fotos exclusivas da Capadócia em seu último post, ele curte férias do CQC, e de tudo o mais, bem longe daqui, em Istambul. O Tas é um cara de sorte. A lista dos vencedores de melhor blog de:

Artes e cultura: Amálgama
Automóveis: Velocidade
Ciências: Brontossauros em meu jardim
Cinema, música e TV: Poltrona
Corporativo: Papo de empreendedor
Culinária: Homem na cozinha
Design: Bem Legaus
Educação: Rastro de Carbono
Entretenimento: Sedentario & Hiperativo
Esporte: Blog do Juca
Games: Continue
GLBT: Papel Pop
Humor: Kibe Loco
Jurídico: Direito e trabalho
Metablog: Twitter Brasil
Negócios e finanças: Dinheirama
Pessoal e cotidiano: Planejando meu casamento
Política: Pedro Doria
Publicidade e Comunicação: Brainstorm #9
Quadrinhos: Malvados
Religião e esoterismo: Isso é bizarro
Saúde: Contrapeso
Sexo: Boteco sujo
Tecnologia: Gizmodo Brasil
Turismo: Vida de Viajante
Universo Feminino: Melhor Amiga
Universo Masculino: Papo de homem
Design: Sedentário & Hiperativo
Podcast: Nerdcast

Melhor Blog: Blog do Tas

Por falar em blog, a Campus Blog foi, de longe, a minha área predileta nesta edição. Aliás, vale uma dica para quem cultiva interesse sobre o assunto. O livro da Raquel Recuero, o Blogs.com, está disponível na rede. É só entrar aqui. A Raquel veio na quinta-feira para apresentar as suas pesquisas sobre mídias sociais, blogs e microblogs como o twitter. Foi, sem dúvida, um grande momento da Campus Party 2009, como outros tantos no mesmo Campus Blog, apesar de não haver um público acadêmico, como a própria Raquel lembrou. E apesar da falta de mais conteúdos como esse no evento. Fica para a próxima.


Imagem: social media

23 janeiro 2009

O verde se escondeu no Campus

Existe um espaço, aqui na Campus Party, dedicado aos projetos de sustentabilidade e afins. O nome é Campus Verde. Nunca vi esta área cheia, não sei se devido ao baixo interesse ou à localização - a organização do evento a escondeu muito bem em um canto da arena aqui no Imigrantes. Audiências à parte, foi lá que vi a exposição da oficina profissionalizante do Clube de Mães do Brasil, com seus produtos "verdes" elaborados por pessoas de baixa ou nenhuma renda. Chamaram a atenção umas coloridas banquetas feitas de pet (R$ 40) e os confortáveis puffs de pneu (R$ 60). Não se preocupe, eles não sujam (sentei, é claro) e podem ser bem úteis. O Clube fica na Avenida São João, 2150. Acho que vale a pena dar uma força para esse pessoal, comprar para presentear ou, então, se você mora na região Consolação-Augusta, nada mais cool para alegrar sua sala hype.

Também acompanhado nas andanças com o camarada Manuca - agora na Abril - que deu o ar da graça nesta tarde fria aqui na Campus Party, descobrimos representantes de comunidades quilombolas, também renegadas ao isolado Campus Verde. Conversei com a rapaziada, gente de Campinas e do Rio Grande do Sul. Eles disseram que se preocupam com inclusão digital e construção de telecentros "corretos" nestas áreas. Não sei o que pensar sobre o assunto, mas vou pesquisar, a começar pela rede Mocambos.


22 janeiro 2009

Guantánamo


Será o fim do Jack Bauer way of life? J. Silva, se não for ação de fachada, pose para foto, começou a ser atendido pelo menos um dos seus pedidos para a "era Obama".
"WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, assinou nesta quinta-feira, 22, em seu segundo dia de governo, um decreto que estabelece o fechamento da prisão de Guantánamo em um ano. O novo chefe de Estado também assinou outras duas ordens executivas que proíbem a tortura e os maus-tratos nos interrogatórios e o encarceramento de presos. Criada durante o governo George W. Bush em 2002, Guantánamo, localizada em uma base naval em Cuba, era usada para prender suspeitos de terrorismo do mundo todo sem uma acusação formal." Leia mais aqui! E a íntegra do Washington Post aqui.

21 janeiro 2009

A esquerda é cega no sobe-desce

Coisa fácil de me irritar em São Paulo é escada rolante do metrô. Não necessariamente a escada, mas os que sobem e descem sem entendimento dos mecanismos universais do espaço rolante. Alguém me ensinou, e não foi em sonho, que a esquerda deve ser reservada para quem está, digamos, com pressa, ou prefere ir mais rápido, tanto faz se sobe ou desce.

Hoje, um dia a mais dessa tortura dispensável. Estava atrasado (e não importa se está ou não em cima da hora) e precisei ficar parado, com um amontoado de pares na minha frente. Em uma das baldeações, na Sé, peguei a escada vazia (que presente!) e desci na corrida. Mas, como nada pode ser tão bom e fácil, um par de "desceuntes" ocupava a direita e a esquerda. Apenas olharam para trás, me viram estacionado, a cara de apavorado, mas nada. Para completar o infarto, saíram devagar, enquanto via o metrô ser perdido exatamente devido aquela barreira de dois humanos. Fizeram tudo totalmente calculado para me aterrorizar - a teoria da conspiração cochichou para mim.



Na reencarnação da vida na Terra, da próxima vez, poderiam fazer escadas em tons de laranja, com os dizeres "apenas para quem está suado e com cara aflita".

imagem: Gave

20 janeiro 2009

Campus Party sem poesia


Segundo dia de Campus Party Brasil e não posso dizer que estou "aproveitando". No trabalho de levar jornalistas e blogueiros, orientar, dar informações e credenciá-los, palestras como a de Tim Berners Lee, criador da web, são perdidas. Nem de Gilberto Gil, totalmente dedicado à repórter da MTV, pude entender o que dizia. Soube por terceiros que o Pasquale falou sobre nova ortografia e norma culta da língua na internet. Fazendo sua defesa, é claro. Quando lhe perguntaram sobre o português praticado no twitter, não fazia idéia do que falavam.

Ainda espero um momento para me livrar da imprensa e dos nerds e dos geeks e das suas geringonças. Acompanhar palestras que valem a pena, tentar aprender alguma coisa nesse universo paralelo, quem sabe conhecer as práticas de software livre e mídia social, seja lá o que os dois possam significar na minha vida de todos os dias.

O Campus Party é um Fórum Social Mundial de Nike Shox. Não é difícil me pegar na dúvida: o que estou fazendo aqui?

19 janeiro 2009

Obama´s Day

Amanhã é um dia histórico, como todos são, obviamente. Mas será desumano tentar esquecer que é dia com Barack Hussein Obama em todas as telas, visores e imagens possíveis. Desta vez, e oficialmente, o 44º presidente norte-americano. Até cessar-fogo em Gaza foi decretado, nada pode atrapalhar as atenções da mídia no dia de amanhã.

Não, eu não acredito que Obama seja o salvador do mundo. O mundo, por sinal, é grande demais para estar nas mãos de um só esperançoso. Na abertura das festas da posse em Washington, para sua família e milhares de pessoas, Obama disse "o que me dá esperança são vocês".

Faço três pedidos a nem sei quem, mas faço. Que Obama não se esqueça que para boa parte do planeta invadido por imagens de promessas de mudança a esperança é exatamente ele. Que a Obamania não seja apenas a salvação dos vendedores de bottons ou que a grande preocupação não seja o modelito usado por Michelle Obama.

Que à frente da mais poderosa nação do mundo, Obama seja capaz de não cometer a metade dos erros já cometidos. Essa já seria uma grande mudança. Você acredita?
Fotos da campanha de Obama aqui.

"City of blinding lights", a canção tema da campanha de Obama que diz "Blessings are not just for the ones who kneel luckily":

foto: nyt

09 janeiro 2009

Lula não é o bastante

A maior parte dos comentários sobre a primeira piauí de 2009 discute a exclusiva do presidente Lula. Todos os que leram, e os que não leram, já sabem que o presidente prefere assessores para se informar e que a imprensa lhe causa azia. Era de se esperar. Na repercussão o Noblat já revelou, a partir da íntegra das declarações, que Lula considera os jornais obsoletos (!).

Mas, cuidado. O auê em torno do presidente (que sempre será certeza de boa venda) não pode esconder as matérias que valem a pena nesta edição. Além de Roberto Kaz narrar as peripécias do popular Meia Hora do Rio e da eterna discussão lembrada por Consuelo Dieguez sobre a exploração e contratos do pré-sal brasileiro, a piauí 28 tem dois saborosos textos.

Um é do próprio João Moreira, que vasculhou a história recente da Islândia, a ilha gelada que até ontem me lembrava apenas Björk, gordura de peixe e uma terra condenada pela crise financeira sem maiores explicações. Em "A grande ilusão" observa-se a trajetória de expansão e bancarrota deste país que nunca abolirá o trema. É interessante.

O outro texto, o melhor desta piauí, é a história do caricaturista David Levine, o demolidor de biografias. A narrativa de "Levine no escuro", de David Margolick, sobre a acidez dos desenhos que praticamente contam o século XX, esbarra na batalha do mesmo Levine contra a cegueira e consequente fim de poderoso trabalho. A história me emocionou profundamente. Para quem quiser, alguns retratos de Levine podem ser vistos aqui.

Se Lula lesse (eu disse "lesse", não "ouvisse") pelo menos uma dessas últimas matérias, e mesmo assim sentisse cócegas no fígado, não haveria mais esperança.

Levine já retratou o presidente em dezembro de 2002. Lula viu?


imagem: the new york review of books

07 janeiro 2009

Esporte bom para cachorro

Os maiores feitos esportivos do Brasil se devem, em grande parte, à invenção da Inglaterra, o berço do futebol. Pouco se fala, mas outra criação da “terra da rainha” figura entre as mais recentes conquistas do País. A modalidade não usa bola, nem pés. Há saltos em altura, condutores, obstáculos e equilíbrio. São passarelas, rampas, gangorras, túneis, pneus. Não é hipismo, apesar de essa ser a sua inspiração. As medalhas que vieram da Finlândia em novembro foram conquistadas por duplas de cães e condutores do agility.

Em Helsinque, na disputa por equipes, os cachorros brasileiros deixaram os donos orgulhosos. O País esteve no topo do pódio das categorias mini e standard, o melhor resultado do Brasil na história do Campeonato Mundial de Agility. O técnico da seleção, José Luiz Filho, um sujeito confiante no trabalho, não esconde que considerou o resultado inacreditável. “Começamos a treinar semanalmente cinco meses antes da viagem”, diz. “O que nos falta é mais campeonatos, patrocínio e parcerias”.

O agility consiste em um circuito com obstáculos. Orientado por seu condutor, apenas com gestos e comandos verbais, vence o cão que completar a volta mais rápida e com menor número de faltas. O esporte surgiu como brincadeira há 30 anos. Na exposição da Crufts Dog Show, os ingleses se distraíam com os cachorros nos intervalos das apresentações. Há dez anos no Brasil, o agility deve agradecimentos a Dan Wroblewski, coordenador da Comissão Brasileira de Agility (CBA).

Veterinário que nunca quis atuar na área clínica, Wroblewski trabalhava há quatro anos em uma fábrica de alimentos para cachorros quando foi escalado, em 1993, para pesquisar e introduzir o agility no País. Com os louros da vitória 15 anos depois, ele espera que as conquistas ajudem a popularizar o esporte. “Quanto mais pessoas praticam, mais integração com os cães. Nas grandes cidades, já se percebe que isso melhora a qualidade de vida”, diz.

No Brasil, o esporte ganha espaço como atividade de lazer em prédios e canis. Até o técnico José Luiz Filho, que também é veterinário, já foi consultado para a construção de playgrounds para cães em condomínios. Hoje, a CBA tem cerca de 500 associados. “Mas há mais gente fora dos números”, diz José Luiz. “Acredito que existem 2 mil praticantes no Brasil”. O sucesso tupiniquim no esporte canino é o grande responsável por trazer para o Brasil o Campeonato Américas e Caribe, em abril.

TV para cachorro

Para Wroblewski, o agility não se restringe aos competidores. “Quantas pessoas praticam futebol ou natação como esporte? A maioria busca o lazer, o bem-estar”, argumenta. “Se tivéssemos mais áreas para a prática, com melhor identificação dos cães, o número de cachorros errantes, doentes e atropelados seria menor”. O veterinário insiste que a “filosofia” do esporte é sociabilizar cães e pessoas. Para ele, é como se a atividade proporcionasse uma comunicação entre o cão e o dono, superando o simples passeio matinal pelo quarteirão e as brincadeiras sem interação.

Em Helsinque, Wroblewski também se surpreendeu. “Ganhar lá é ganhar na terra do cachorro”. Na Finlândia, o agility é o segundo esporte em número de federados. São cinco mil praticantes em um país de 5 milhões de pessoas. No mundial com ginásio lotado a televisão finlandesa transmitiu ao vivo os saltos dos pastores de Sheltant e border collies brasileiros.

Dupla

A fonoaudióloga Vivian Razel, de 39 anos, é uma condutora que conheceu o agility antes de achar um cão adequado para os saltos, desvios e corridas. “O agility me proporcionou uma relação sadia com o cão”, diz. Na sua lista de exageros aparecem treinos sob chuva e troca de carro para melhor transportar os cachorros. O primeiro parceiro escolhido foi um border collie chamado Elvis. “Foi amor à primeira vista”, admite. “A nossa história começou quando o Elvis nasceu. Um mês depois o reencontrei e pensei: ‘eu quero para mim’”.

Mas ela teve um duro caminho. “A minha carreira e do Elvis foi sofrida. Ele logo ficou pronto fisicamente e no aspecto tático. Eu não conseguia acompanhá-lo corretamente, dava comandos errados”. Após muitos treinos e competições, conseguiu atingir o nível do companheiro. “Hoje fiz um treino lindo, maravilhoso. Estou satisfeita com a minha condução”. A dupla Vivian e Elvis se diverte há cinco anos.

Texto escrito para aula do Curso Estado de Jornalismo